google-site-verification=UqfubJMjWKP7eOng52ezkPo-x_AJme7HPmkb__6PpZs
annapenido1 209051142 229156175527549 6055146514190696473 n

Palavras que rodopiam

Nasci com as palavras rodopiando na cabeça. Um amontoado de sons e letras, às vezes embalado por vento ameno, de outras arrastado por um torvelinho daqueles que sugam o juízo da gente. Palavras que não cabem em mim e se precipitam pelos olhos, pela boca, pelas mãos. O olhar que revela bem mais do que eu gostaria. A oralidade que me arrebata bem mais do que deveria. A escrita que desvela e acalma toda a minha agonia.
Escrevo para deixar que o redemoinho arraste o que se passa dentro de mim e espalhe essa montoeira de palavras pelo mundo. Palavras mortas, feridas em carne viva, ideias e sentimentos impossíveis de se limitarem ao perímetro da minha calota craniana. Pacientemente, elas espreitam o momento em que baixo a guarda, para se imiscuírem pelas fronteiras da minha autocrítica implacável.
A dor e a indignação têm esse poder de me abrir as comportas, fazendo jorrar as palavras que me habitam. Palavras que traduzem, nomeiam, apontam, explicam. Escrevo porque ato involuntário e destino inexorável do que me atravessa. Escrevo para me desapegar e deixar pegadas. Escrevo porque a minha vaidade enrustida me faz acreditar que tenho algo a dizer, porque a minha pretensão disfarçada de boa intenção me faz acreditar que as minhas palavras podem servir a outras pessoas.
Ele era o escritor. Eu era apenas uma leitora ávida. Ele partiu e me deixou grávida de um livro. Eu pari a obra e a escritora nasceu com ela, assim como as mães nascem com seus primeiros filhos. Escrevo para que me seja possível seguir sem ele e terminar de criar os projetos que colocamos no mundo. Escrevo porque já era sem saber. Descobri que era, porque amei profundamente um especialista em revelar talentos invisíveis a olhos menos aguçados. (Exercício do curso A Mulher que se Escreve, com @cica_lessa )