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Saudade Sólida

Zeca coloca a mãozinha no peito e me diz sentir dor no coração. Pergunto a razão. Ele me fala vagamente que não está feliz com este mundo. Quer saber o que provoca dor no coração. Falo também vagamente sobre tristeza e sofrimento.

Após a partida de Zeca, penso mais profundamente sobre a dor que habita o meu próprio peito e como se transmuta ao longo do tempo sem nunca me abandonar. Lembro-me de quando fui atravessada pela dor inesperada e surpreendente do diagnóstico. O choque inicial. O suspense que tencionava o meu corpo e impedia o ar de circular livre e plenamente pelos meus pulmões, como se, ao retê-lo, pudesse também impedir o tempo de se esvair.

Recordo a dor da partida. O corte sangrento e ardido que transbordava em forma de lágrimas incontidas e infindáveis. O coração dilacerado, disforme, despedaçado. O zumbido no ouvido e na alma que, misericordiosamente, me impedia de me dar conta do tamanho daquela perda. A razão impossibilitada de se desgarrar da ilusão de que aquele que partiu ainda poderia retornar.

Fantasia que o tempo e a realidade inexoráveis dão conta de desmanchar. A dor líquida que se transforma gradualmente em pesar sólido e passa a se instalar em um lugar mais profundo da minha existência, como uma grande cicatriz que esporeia e lateja.

Zeca me pergunta se há pomada para dor no coração. Digo-lhe que o único remédio que cura meu coração é o amor. Ele me confessa que gostaria de ir para casa dar um abraço em sua irmã. Concordamos que nada acalenta mais um coração doído do que dar um abraço em quem a gente ama.